25 de mai de 2013

A crueldade dos 30 anos



Esses 30 e poucos anos são dolorosos. Não porque o sanduíche gorduroso que comemos à noite começa a pesar no estômago de um modo nunca antes experimentado. Ou porque nossas coxas revelam gordurinhas que antes não estavam ali (eu juro!). Ou porque seus primos mais novos, aqueles que você carregou no colo, já estão terminando a faculdade. Os 30 revelam que os sonhos não se realizam: eles se transformam em outros sonhos.
 
Quando tinha por volta de seis anos, me lembro de ficar sentada no chão, com uma almofada à frente. Por cima dela, um gibi aberto. Eu olhava para baixo e para frente, fazendo movimentos exagerados com a boca e pronunciando frases desconexas. Eu fingia que estava apresentando um telejornal. Aos 15, eu achava que, em uma manhã, o milagre aconteceria: meu cabelo não teria mais esse comportamento estranho, de um dia estar liso e, no outro, ondulado; o nariz milagrosamente iria ficar um pouquinho menor; as olheiras, presentes nas minhas fotos desde a infância, iriam dar lugar a olhos grandes e cílios longos; e eu iria ainda ganhar os quatro centímetros que faltam para chegar ao desejado 1 metro e 70. Aos 20, me imaginava em altos cargos de direção, pisando duro e orgulhando-me de trabalhar muito e dormir pouco. Aos 25, queria envelhecer ao lado daquele que dizia que tanto me amava. 
 
Chegam os 30 e tenho de explicar para aquela parente distante por que eu não quis ser como a Fátima Bernardes: “Sim, eu sei que ela é famosa e bonita, mas a senhora nunca me verá ao lado dela. Telejornalismo não é minha vocação…”. Vêm os 30 e percebo que o melhor é aprender truques perfeitos de maquiagem, confiar em alguns cosméticos e, sobretudo, entender que há dias em que me sinto linda e há outros em que penso que todos olham para mim na rua com certo ar de pavor… Passo a barreira dos 20 e compreendo que surgiram outras experiências, outras escolhas e outras prioridades e gosto da ideia de passar os dias conversando com meus alunos de jornalismo e pesquisando os meandros da comunicação – mesmo que, às vezes, sinta muita falta da redação. Aos 30, percebo que ainda quero envelhecer ao lado de alguém que diga que me ama, ainda que não seja aquele que me falava isso aos 20.
 
Hoje contemplo o pôr do sol da minha janela, tendo imenso prazer ao observar aquela tonalidade rosada que cresce por entre os prédios e se espalha por nuvens compridas, espreguiçando-se no infinito. Hoje fecho os olhos quando ouço o coro e o órgão durante a missa, buscando uma ligação maior entre minha alma e o divino que a alimenta. Hoje me jogo no colo de meus pais, não como se criança fosse, mas contente por ser adulto e ainda poder fazê-lo. Hoje leio mais livros do que nunca, mas não mais para encontrar respostas às minhas dúvidas. Elas não vão passar, mas, sim, se transformar em outras.
 
Hoje, literalmente hoje, entendi que a vida é um guia sábio, que não ensina uma lição que o aluno ainda não pode aprender. Sem as dores dos 30, eu não teria resgatado a simplicidade que oferece conforto, os pequenos gestos que trazem lembranças familiares, as cenas cotidianas que nos cansam de tanto abrilhantar a vida. Eu não poderia entender que os sonhos caem e se reconstroem, com nossa própria ajuda, a partir dos cacos de si mesmos espalhados pelo chão. Os 30 anos são cruéis, mas, sem eles, eu não suportaria os 40.

 Juliana Doretto, paulista, é jornalista. Texto extraído do Mulher 7x7 aqui!

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